4.10.06

Aimer, même trop, même mal

Jacques Brel é mais que um cantor ou poeta, é um verdadeiro intérprete. Cada canção é por si vivida intensamente, seja em palco, seja em vinil, e tal transparece até numa mera audição.

Uma das mais conhecidas e tocadas é este Ne Me Quittes Pas. Não deverá haver mulher alguma à face da terra que não tenha sonhado, enquanto ouvia Brel neste tema, serem-lhe dirigidas estas palavras, o derradeiro apelo do principe encantado, nas suas juras de amor eterno.

Moi je t'offrirai
Des perles de pluie
Venues de pays
Où il ne pleut pas
Je creuserai la terre
Jusqu'apres ma mort
Pour couvrir ton corps
D'or et de lumière
Je ferai un domaine
Où l'amour sera roi
Où l'amour sera loi
Où tu seras reine

Lindo.
Mas a música continua, as juras e promessas, as contrapartidas oferecidas, vão-se diluindo em sofrido lamento. E no final, bem, no final...

Laisse-moi devenir
l’ombre de ton ombre
l’ombre de ta main
l’ombre de ton chien
mais ne me quitte pas

Agora já não é lamento, é súplica. É desespero, é querer morrer com um amor já morto, persistindo na sombra de quem já nem nos reconhece. O desenvolvimento da música, da esperança inicial em reconquistar a pessoa amada até à súplica e total aniquilamento final é soberba, e Jacques Brel interpreta-a como ninguém.

Não é esta a única música em que Brel canta o amor subjugado, servo, humilhado. Com humor (mas um humor um pedaço amargo, diga-se), Les Bonbons traz de novo à baila este tema. Também vale a pena ver.

E agora, por fim, apenas uma das minhas preferidas de sempre. La Quête, a mais bela exaltação de um ideal de que tenho memória. Tenho pena de não encontrar o video de Brel a cantá-la (numa interpretação fá-lo vestido de Don Quixote), mas fica a letra. Poderosa, muito. Na minha vida, é.


Rêver un impossible rêve
Porter le chagrin des départs
Brûler d'une possible fièvre
Partir où personne ne part
Aimer jusqu'à la déchirure
Aimer, même trop, même mal,
Tenter, sans force et sans armure,
D'atteindre l'inaccessible étoile
Telle est ma quête,
Suivre l'étoile
Peu m'importent mes chances
Peu m'importe le temps
Ou ma désespérance
Et puis lutter toujours
Sans questions ni repos
Se damner
Pour l'or d'un mot d'amour
Je ne sais si je serai ce héros
Mais mon coeur serait tranquille
Et les villes s'éclabousseraient de bleu
Parce qu'un malheureux
Brûle encore, bien qu'ayant tout brûlé
Brûle encore, même trop, même mal
Pour atteindre à s'en écarteler
Pour atteindre l'inaccessible étoile.

3 Comments:

Blogger morningstar said...

Não sou fã de Jacques Brel. Não. Durante muito tempo, sempre que ouvia o nome do dito intérprete, o meu estômago murmurava qualquer coisa na linha de "isso é música do tempo dos teus pais!!". Preconceito adolescente, enfim.

Mas há alguns anos rendi-me a este "Ne me quitte pas", precisamente pelo poema. É lindíssimo, soberbo! Fico arrepiada só de o ler (quanto mais de o ouvir!).

E os excertos que transcreveste são também os meus preferidos. No primeiro, a promessa e entrega incondicional, aquele desejo (provavelmente ingénuo) de se atingir as estrelas, se necessário, para ver um sorriso na face do Amor. No segundo excerto, o desespero, a subjugação, o desistir de lutar embora ainda lutando.

Lindíssimo. :-)

**
ms

23 outubro, 2006 18:26  
Blogger Lisa said...

oh, eu adoro o Brel, tem uma alma a cantar, e é um poeta de mão cheia. rendi-me à sua música quando ainda era adolescente, depois de ultrapassar os mesmos preconceitos que tu ;P

24 outubro, 2006 19:05  
Blogger Jaime said...

Bom, o homem era um verdadeiro génio (os franceses ainda não lhe perdoaram ser belga), eu só queria acrescentar uma perspectiva masculina: "Amsterdam", exaltação pura de machos sofredores...

11 novembro, 2006 17:32  

Enviar um comentário

<< Home